A Árvore e o Mendigo

June 13, 2017

Caiu uma árvore gigante perto de casa. Um ser vivo maciço, imenso, só a raiz era maior do que a minha altura. Bloqueou a rua, destruiu um carro, não matou ninguém. Na queda, desesperada, tentou se agarrar nos fios de luz sem sucesso. Levou tudo abaixo. Ficamos no escuro por cinco horas.

 

Passei por ela com o meu guarda-chuvinha a caminho do metrô. Motoristas desavisados davam meia-volta no meio-fio. Parei para um minuto de silêncio. A chuva e o vento castigavam. Meus dois pés encharcados, chlop, chlop, a legging molhada, o frio. E aquela frondosidade derrubada.

 

Desci as escadarias, dobrei a esquina. Sob o abrigo do Terminal de Ônibus da Vila Madalena, o Seu Luis, mendigo que mora há anos naquele ponto e dorme sobre as plantas do jardim. Como? Como eu posso ter a consciência de que um ser humano dorme ao relento há tanto tempo e não faço nada?

 

Na plataforma lotada, pessoas submersas em seus celulares. Busquei a Bia. Beijos, abraços, sorriso, o meu solzinho particular. Mãe isso, mãe aquilo. Contei da árvore e do Seu Luis. Passamos por ele e estava sentado na chuva, com uma capa plástica nos ombros. Passamos pela árvore e lá se quedava sozinha em seu último momento plena antes de ser esquartejada. Uma baleia de olhar triste. Bia exclamou "U-A-U". Seguimos.

 

O bairro inteiro no breu, nós e uma lanterninha. Cascatas na escadaria, pulamos. Como companhia, a pressa de chegar em casa e o olhar pra cima em busca de galhos que pudessem nos cair na cabeça. O porteiro Leandro abriu o portão manualmente. E se molhou por nós. "Obrigada". Subimos os 5 andares a pé, competindo, rindo. A Bia chegou ofegante, eu não. Pensei "Tô bem na fita".

 

Jantamos a luz de velas. Sem wi-fi, TV, Ipad ou Iphone, pegamos cobertores e nos deitamos no sofá para conversar. Fiquei sabendo que ela mandou um WhatsApp para um colega dando bom dia e ele respondeu: "Ana Bê, vai tomar no c.".

 

O mendigo, a árvore, a falta de empatia do coleguinha, a Santíssima Trindade da desumanidade. Fomos dormir cedo, juntinhas. Ana Bia propondo ações efetivas para ajudarmos a melhorar a vida do Seu Luis. Nossos dedos entrelaçados sob o calor das cobertas. Os muitos mundos que esse mundo tem. E de repente barulhos pela casa, aparelhos eletrônicos apitando a funcionar: a luz voltou. A luz voltou... Mas talvez ainda não tenha (com certeza falta muito) nos iluminado tanto.

 

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