O Fundo do Poço

July 1, 2018

 

Uma coisa que eu sinto falta é do fundo do poço. O buraco negro, profundo, abissal, aquele lugar no qual a gente cai e diz “pronto, daqui não passa”. Porque o fundo do poço, na verdade, é uma mola propulsora. Quando você chega lá, não tem jeito, tem que sair de alguma maneira.

 

Você até pode amargar alguma autopiedade, sentar no lodo, lamber as feridas, desaguar mágoas, culpas, autocríticas. Mas quando chega o momento do “ou eu me levanto e saio dessa lama, ou é aqui que vou chafurdar”, você rói as unhas para não perdê-las na escalada, inspira fundo, esfrega as mãos uma na outra pra se aquecer, toma coragem e começa o caminho de volta. Pra cima. Rumo ao topo.

 

O momento fundo do poço é um alento, é como a linha de chegada de uma maratona. Não tem mais desculpa, não há corpo mole, nem ventinho da queda. Adeus ilusão de que talvez as coisas não estejam assim tão ruins, de que você está em movimento. De que você possa, quem sabe por milagre ou percepção alterada, estar subindo, e não descendo. Pá!

 

É o baque. É preciso encarar a realidade: você estava caindo. Para tudo. Só há breu. Breu, terra firme (ou talvez não tão firme assim), pernas trêmulas e susto. O impacto inicial gera, inclusive, certa descrença. Não é possível, não tem como piorar mesmo? Não tem. Você sabe. O fundo do poço é também o fim da fantasia. É a certeza de que zerou tudo, sentimentos bons, ruins, é a reinvenção do sentir.

 

É, minha gente, o fundo do poço é placenta. Ali você se nutre, dali alguns não querem sair. Mas a luz chama, a vida segue, é curso natural, independe de você. As paredes em volta contraem, comprimem, é assim com todo mundo, esqueça essa noção infantil de você ser único e especial. São 7 bi de seres no planeta. São 7 bi de fundos de poços. Você vai ter que encaixar a sua cabeça na pélvis da existência e se forçar pra fora. Ninguém o fará no seu lugar.

 

O fundo do poço é uma delícia. É quando começa a brincadeira. Se uma pessoa virar pra mim e disser “estou no fundo do poço”, respondo “sinto inveja”. Ainda estou em queda livre. Da série: “me reinventando”. Norte e Sul se misturam numa bússola desgovernada. Que fase chata. Quero chegar logo no meu limite. Na ausência infinita de fé. Na umidade da falta de alternativas. Porque onde há esperança, inexiste indignação. E só quem bate a bunda no chão está pronto pra recomeçar.

 

*Publicado originalmente no EXNAP.

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