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Ensinando (e aprendendo) a pedir desculpas

Por Ana Kessler


Aqui em casa eu e a Bia temos uma regra: quando uma erra e pede desculpas, a outra também pede. Não importa de quem é a culpa, nem o tamanho do erro, as duas perdoam-se mutuamente. Mas nem sempre foi assim.


No início, eu achava que tinha que ensinar minha filha a, sobretudo, assumir seus deslizes. Que, além de educado, era a coisa certa para ela aprender, a fórmula básica: errou, se arrepende, expressa o arrependimento e se redime. Afinal de contas, é o que o mundo lá fora espera da gente. E é claro que não queria que a minha pequena fosse vista como mal educada.

Então, aos 2 aninhos, quando disputava o brinquedo com a amiguinha, saíam farpas e faíscas, lá ia esta mãe, como todas, a doutrinar: “Empresta pra fulaninha, não é legal bater, dá um abraço”. Aos 4, “Filha, não pode riscar o desenho da amiga, ela vai ficar triste, pede desculpas”. Tudo ia bem até o dia em que ela virou pra mim e disse: “Eu só peço se você também pedir”. A frase me atingiu feito um soco, fiquei até sem ar. Como assim? Se ela tinha feito a malcriação, ela me devia desculpas, não eu!


Ana Bia me mostrou que eu estava errada. Entre dois corações feridos, sempre há sobre o que se desculpar. Ela disse: “Eu peço desculpas por ter sido malcriada, mas você por ter gritado comigo”. Novo soco no peito, desta vez em forma de luz. Ela estava certa, certíssima. Um portal de uma nova forma de enxergar o mundo se abriu para mim.


Quando duas pessoas brigam, há duas visões envolvidas. Duas verdades. Não importa quem começou, quem disse o que, quem venceu a discussão. Ao se magoarem, ambos perderam. E são merecedores do perdão mútuo, do bálsamo do amor. A partir desse dia passei a procurar motivos nos erros alheios para me desculpar também. Ou por ter provocado, ou por ter me omitido, ou por ter sido conivente ou, simplesmente, por solidariedade.

Assumir metade da culpa da reação do outro é um exercício de humildade. E lógica. Por que comunicação é 50% o sinal que você emite e 50% o que o outro capta. Se o interlocutor devolver a você agressividade quando a sua intenção inicial não foi feri-lo, é fato que houve uma fissura em algum ponto. A culpa pode não ter sido sua, na sua forma de ver. Mas você já parou para pensar se, na visão do outro, a percepção é a mesma?


Se a Bia quebra um copo, eu peço desculpas por não tê-la ajudado. Se ela grita comigo, por tê-la irritado. Mas deixo claro que não gostei da atitude, ao que ela baixa a guarda e se desculpa em seguida. E assim seguimos. Nas vezes em que, perdida, não encontro motivo para me redimir, peço ajuda: “Você quer que eu me desculpe pelo que?”. Sabiamente, ela responde: “Por nada, mãe, só dizer já está bom”. Às vezes, o que precisamos, no fundo, é de uma força para perdoarmos a nós mesmos.


*Texto publicado originalmente no blog De Mãe Pra Mãe, projeto Unilever/MSN (2012). Ao longo de dois anos, as jornalistas Ana Kessler, Adriana Teixeira e Mariana Della Barba escreveram semanalmente sobre maternidade real, sem filtros e com muito amor.


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