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Imagine

Por Ana Kessler


Um Rolls Royce azul marinho estacionou na frente do restaurante em que eu trabalhava como hostess. O chofer de quepe também marinho, mas com luvas brancas, contornou o carro e abriu a porta. Três pessoas desceram e entraram no Le Refuge.


"Good afternoon, may I help you?”, sorri.

Good afternoon, queriam uma mesa. Não, não tinham reserva. Ârram. Eles não tinham reserva e eu não tinha lugar para acomodá-los. Eram dois homens e uma mulher, irreconhecível, escondida atrás de um óculos aro de tartaruga preto. Grande e preto. Ârram.


Sempre sorrindo, amável e sem solução, expliquei a situação: o restaurante estava lotado.


“Mas e aquela mesa ali, vazia?” apontou um dos jovens senhores.


“Está reservada.”


“Como assim reservada? Tem certeza?”


Se eu não tivesse certeza, não teria dito, ou o senhor acha que estou fazendo o quê aqui de pé? Sorrindo à toa? Mas é claro que não falei isso pra ele. Continuei sorrindo.


“Nós sempre viemos aqui”, insistiu o sujeito.


Se viessem sempre aqui saberiam que seria mais do que necessário fazer reserva. Pensei. Da minha boca só saiu um: “tenho certeza que sim, senhor”.


Infelizmente, eu não podia fazer nada. Era domingo e o Le Refuge estava cheio. Os dois salões do fundo, com capacidade para umas 60 pessoas, estavam alugados para uma festa de casamento. O salão da frente, aberto ao público, estava, óbvio, aberto ao público. Mas também cheio. Havia apenas uma mesa desocupada, com seis lugares. Era essa a mesa que ele requisitara. E que eu negara.


Domingo é dia de brunch, famoso breakfast com lunch dos americanos. E o oferecido no Le Refuge, de cozinha francesa, é delicioso, maravilhoso, esplendoroso! As omeletes com salmão, hum, caviar, hum, quiches de queijo e espinafre, hum, regados a champagne, nhãm-nhãm, são de dar água na boca. Toda a velha elite judaica, classe A, do Upper East Side de Manhattan sabe disso. Tá certo que aquela oriental, agora sem os óculos, parada na minha frente, não sendo judia, nem aqui nem na China, ou seja lá de onde é que ela viera, não era obrigada a saber. O que não mudava nada: a espera por uma mesa seria de uns 15 a vinte minutos – o que em se tratando de NY, é o tempo de um suspiro.


Não quiseram esperar. Um dos caras até ficou meio bravo, saiu dizendo que aquilo era um absurdo. Absurdo é sábado à noite, meu senhor, pensei.



Um garçom veio até o meu posto, apoiou o cotovelo no balcão, e juntos ficamos olhando o trio se afastar em direção ao belo carro. Foi então que, depois de um lamento, o Silvain resmungou com sotaque francês: que pena! A Yoko Ono semprrrre deixa boas gorrrrjetas.


“Yoko Ono?”, gritei. Mas o Rolls Royce desaparecia, silenciosamente.


*


Vim pra casa pensando no ocorrido. Eu, ali, frente à frente com uma personagem da história universal do rock, uma dinossaura viva, e nem me dei conta! Ana Kessler, hellô-ôu, em que planeta você vive? Fiquei arrasada. Me senti uma criminosa. Como se, de repente, eu é que tivesse matado o John Lennon. Tá bem, não é pra tanto. Mas que foi uma lástima, isso foi. Imagine!


Porém, independente da identidade, eu ainda acho que agi certo. Não poderia ter cedido a mesa reservada às outras pessoas, comprometer a festa da outra clientela. Nem pra Yoko, nem pro Papa! Tá bom, pro Papa.. Não tinha espaço pra colocar uma mesa extra. Ofereci drinks no caso de eles concordarem em esperar um pouco, mas eles não quiseram. Então, o problema não era mais meu. Era e não era. A única coisa que me doeu mesmo foi que 5 minutos depois que eles partiram, o telefone tocou. Era a dona da reserva da mesa de seis pessoas. Cancelando, naturalmente. Let it be, quando não é pra ser, não é pra ser.


Isso foi no outono de 1998. Pensei que ela nunca mais fosse voltar. Mas em NY acontece um fenômeno curioso: as pessoas parecem que gostam de ser maltratadas em lugares públicos. É só chegar num lugar in e ser barrada na porta, pronto! Vira uma obsessão. Mania de querer ser VIP, ou de estar entre eles. É claro que esse não foi o caso da nossa amiga ex-Beatle. Tanto é que demorou um ano, mas...


Hoje eu estava bem bela no restaurante, quando toca o telefone.


“Reserva pra dois, por favor.”


“Pois não. Qual o nome?”


“Yoko Ono”.


Ela voltou.


*Texto de 1998. Da série: Crônicas de NY

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