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New York, New York

Por Ana Kessler

NY é uma cidade louca, feita sob medida para pessoas anormais. Não que eu me considere muito diferente da média, mas sobreviver na Big Apple requer um certo espírito aventureiro, um desprendimento total da paz um tanto quanto bucólico silvestre de Porto Alegre, minha cidade natal. Aqui é preciso saber rebolar, ter ginga no corpo, dinheiro no bolso e samba no pé.


Exige um certo talento para não se sucumbir às tentações do mundo alucinante dos prazeres da mesa, das artes e das compras! É difícil evitar a autoentrega ilimitada ao que a vida tem de melhor. A menos que você nade em dólares, manter o self-control pode lhe garantir algumas noites de sono. Ou não. São tantas as novidades, as ofertas e as ilusões muito bem vendidas pela eficiente distribuição visual dos milhares de advertisings (maravilhoooosos!!) que manter a mão longe do bolso é tarefa para super-herói, principalmente na era do cartão de crédito - às vezes deixá-lo em casa e uma alternativa eficiente.

Eu, simples mortal, tenho uma tática bem conhecida pelos brasileiros, para manter bem alimentado o meu apetite consumista sem desequilibrar minha balança monetária: grudo o nariz nas vitrines chiquérrimas da 5a. Avenida, fico babando no vidro até absorver todos os detalhes das obras-primas do mundo fashion e depois saio me esbarafundando pela 37th Street, onde encontro as mesmas roupas (ou o que eu chamaria de uma cópia acessível) por 1/28 do preço.


É claro que a qualidade caminha na mesma proporção, mas considerando que o olho clínico das pessoas da classe média tem uma miopia em mesmo grau, tudo fica quites. Só é preciso saber aonde e o quê comprar; pesquisando bem, consegue-se sim coisas muito bonitas e duráveis a preços razoáveis.


NY é a cidade dos excessos, onde os cinco sentidos fazem a festa. Imagine um engarrafamento monstruoso, ambulâncias desesperadas entre centenas de carros estáticos, com suas sirenes ligadas em alto volume e milhões de buzinas, como grilos falantes, a compor a trilha de fundo. Imagine agora pessoas, muitas pessoas a caminhar pelas calçadas, algumas comendo, outras com pacotes de compras, muitas de walkman nos ouvidos, desplugadas do mundo, outras tantas simplesmente plugadas em si mesmas. O pano de fundo é um céu azul enfeitado por arranha-céus empacotados literalmente para presente.


O vento é um coadjuvante silencioso e atua nas esquinas, nas interseções das Streets com as Avenues, ou vice-versa. Não há meninos de rua, mas há crianças grandes, que pedem tips com mãos calejadas e com os mesmos grandes olhos negros e tristes.


Acrescente a tudo isso um pouco de poesia, sempre presente como uma névoa transparente, que pode ser sentida, mas não explicada. Como um show ao vivo de soul music no metrô, inesperado e penetrante, que fala a linguagem da alma e altera a cadência do pulso, fazendo-nos sorrir e chorar. Este é o cenário de um dia novaiorquino, off-Brodway, dejá-vu. Sem atores principais, mas com roteiro premiado, NY cativa, comove, encanta, e está sempre com bilheteria esgotada.

Viver em NY é viver em outro planeta, visível apenas aos olhos dos lunáticos, aos olhos de quem por ela fall in love. Um enigma constante, uma surpresa a cada esquina. Um cheiro de guerrilha racial no ar, nos olhares que te desafiam no metrô (nunca entre numa briga se quiseres sair vivo para contar a história).


Americanos não se tocam, novaiorquinos não se deixam tocar. Tudo é too much, e o teu sorriso dirigido à pessoa errada pode te custar os dentes da boca.. Eu quase fui espancada no metrô por uma homeless só porque pedi licensa para sentar ao seu lado.. Nada é o que parece ser e, na dúvida, não ultrapasse.. Respeitar os limites espaciais das outras pessoas é regra.. Aliás, tudo é regra aqui nos EUA e até para haver exceção ela existe.. Na terra do what for? tudo has to make sense.


O bom mesmo de morar aqui é ter a chance de comer bagels com cream cheese todos os dias. Diz que Deus, depois de criar o mundo e as criaturas, no sétimo dia deitou para descansar e acordou sobressaltado, de sopetão, do sono profundo: "esqueci do cream cheese!" E assim se fez. Cá pra nós, é uma coisa divina mesmo.


Agora NY está em festa, a brasileirada se lavando em compras, tal e qual milhões de turistas do mundo inteiro que se perdem no mar de gentes da 5a. Avenida, também da 6a., da 7a, da Brodway. Cidade fashion, do SOHO à Chinatown, de Wall Street ao Rockfeller Center. Cidade encantada de beleza caótica, muito barulho e tremenda fumaça, mistura de cheiros e raças, línguas, classes, faces, crenças.


NY do Central Park tatuado no peito, de verde intenso, interminável, tentando parar de fumar poluição, tentando renovar este ar viciado distribuindo recantos aos fugitivos urbanos, aos workaholics desportivos, aos vendedores de nuts e aos cachorros necessitados. Cidade das Anas, Marias e Josés, que vêm pra cá estudar a vida, capítulo 1 da existência. Aqui, quem menos corre, voa...


*Texto de 1998. Da série: Crônicas de NY


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